Pensamentos soltos III

Pensamentos soltos III

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Me ignore, mas não finja que nada aconteceu. Vire a cara pra mim na rua, abaixe a cabeça ao me ver passar, delete meu numero e esconda as cartas de amor. Fique sem jeito ao ter que me encontrar numa reunião de amigos, não queira sentar do meu lado na mesa do jantar, deixe um espaço entre nós na hora do parabéns e não se despeça de mim no final. Não passeie pelos lugares que costumávamos frequentar, pare de usar as roupas que eu te dei.
Me ignore, mas não finja que nada aconteceu. Porque enquanto você estiver fazendo todas as coisas que eu nunca quis que você fizesse eu saberei que meu nome ainda te causa tormento, que minha voz te arrepia e minha presença te faz tremer. Enquanto perto de mim você se sentir incomodado eu entenderei que ainda faço parte da sua vida. Mas eu te peço para que no momento em que tudo isso passar suma para eu não precisar ver que sua vida continua a mesma sem mim.

Pensamentos soltos II

Entre casas e jardins

Entre casas e jardins

door

Uma porta fechada. Somente uma porta azul trancada era o que tinha na sua frente. Ela tocava a campainha, mas ninguém atendia. Ela deu a volta na casa. Não viu nenhuma janela. Como poderia existir uma casa sem janelas?

Ficou sentada no portão esperando alguém abrir, o tempo passava e nenhum sinal de vida vindo da casa. Tocou novamente a campainha e continuou sem resposta.  Algumas pessoas que passavam na rua diziam para ela ir embora, que dali não sairia nada.

Uma menina mais nova disse que ela deveria procurar no vizinho, a grama dele parecia mais verde. Ela continuou ali esperando, ninguém se atreveu a contar o tempo que ela ficou imóvel olhando para a porta.

De tanto olhar ela percebeu que a porta tinha um pequeno olho mágico, iguais aqueles de quando ela era criança e gostava de ver as vizinhas chegando.  O dono da casa poderia estar imóvel olhando-a todo momento.

Ela decidiu começar a conversar com as flores do jardim, a contar as suas belas historias para os pássaros, a dividir seu lanche com o cachorro da esquina e fez até carinho no gato. Aqueles pequenos gestos a deixaram tão feliz que ela não reparou na janela que surgira na parede.

Voltou a bater incansavelmente na porta e ela continuava trancada, mas a janela estava escancarada ao seu lado, e ela não via. Ela queria entrar na casa, sentia que o que precisava estava ali dentro, mas com a porta fechada daquela maneira ela não saberia como chegar até lá.

Uma hora a pobre menina dos sonhos confusos decidiu ouvir os que passavam pela calçada e tentou encontrar aquilo que queria na casa ao lado. Foi quando ela ouviu uma voz vindo da casa antiga. Finalmente ela olhou para a janela, que até então, não havia notado e percebeu que o som vinha dali.

O barulho que saía da janela azul era alto, mas só ela conseguia ouvir, aquele som ela conhecia bem, era o mesmo que ecoava em seu coração todas as vezes que ela pensava em seu futuro.
Naquele momento ela teve a certeza que sempre esteve na casa certa, mas dessa vez ela percebeu que não precisava entrar pela porta, a janela não era um obstáculo.

O mistério de um andar.

O mistério de um andar.

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Ele ia andando como quem não queria nada, seu relógio quebrado marcava a hora que nunca tivemos juntos. Os caminhos iam ficando mais largos, o asfalto com mais carro.

Ele atravessava as ruas sem olhar pro lado, a musica no seu iPod deveria estar alta demais para ouvir o barulho incessante da cidade. Gritar não seria o suficiente para chamar a sua atenção.

Comecei a segui-lo pelas ruas, o perdi de vista na hora que fui ajudar uma senhora a atravessar o sinal. Cada vez que eu corria em sua direção mais longe ele parecia ficar. Quase fui atropelada algumas vezes e decidi só me guiar pelos passos ao longe.

Quando já estava desistindo o vi parar numa floricultura, pegar somente uma rosa vermelha e caminhar para uma praça. Na praça praticamente inabitada havia uma garota sentada num banco com um caderninho na mão. Ele passou por ela, mas não a viu, ela o gritou e ele não  a escutou. Ela decidiu segui-lo e também não o alcançava. Parecia que havia uma barreira entre os dois.

Continuei o caminho atrás do cara misterioso e quando vi já eram 3, 4, 5 garotas e todas andavam do mesmo jeito atras da barreira invisível. Reparei que todas elas tinham o mesmo corte de cabelo e a mesma voz.

Até que ele, ainda segurando a rosa, entrou num prédio de portões grandes e grades que não tinham fim. Olhei todas aquelas garotas iguais  e tristes na frente do portão fechado e decidi me aproximar, ao chegar descobri que o perfume delas era igual o meu e o porteiro ainda estava lendo o jornal da manhã.

Resolvi voltar para casa, aquela perseguição tinha me deixado com mais duvidas que respostas. As meninas eram tão familiares que por um momento achei que eu tinha me olhado no espelho.

Cheguei tão cansada que deitei no sofá e ali adormeci, mas agora não consigo entender como acordei segurando uma rosa vermelha e com um bilhete escrito “eu sempre soube que você estava aqui”.

Primeiro encontro

Primeiro encontro

09

Eu não sei quando comecei a me interessar pelos meninos que ficavam no canto das mesas de bar e festas, aqueles que estão ali só de corpo porque a alma está longe e o pensamento em qualquer coisa que não esteja naquele lugar.  Algumas pessoas diziam que caras tímidos não faziam meu estilo, mas o ar de mistério que eles carregam é intrigante como um livro de suspense.

Se eu tivesse te conhecido num desses lugares, seria exatamente um deles e com certeza me chamaria a atenção. Nos conhecemos em um encontro e você me causou aquela sensação de não saber o que vai acontecer, das borboletas no estomago brotando, de tentar entender algo que nunca consegui ser.

Sempre falei muito, sempre fui a cara de pau da turma e a que puxava papos com as pessoas nas festas e filas de banco. Com você não foi diferente, eu tive que agir a todo momento, de fazer você sair de casa até o esperado beijo. Achei que sentiria medo, que poderia precipitar as coisas demais. (Que mulher por mais atitude que tenha parte assim pro ataque? Cadê a cena do filme que o príncipe se declara pra mocinha?)

Mas quando eu te vi ali me esperando na esquina eu me senti como se já te conhecesse há anos, como se aquilo fosse mais um passeio comum de amigos no final de semana. Não me preocupei com modos e gestos, se eu tava sendo legal ou chata, não precisei controlar o quanto eu falava e meus risos altos. Eu esqueci a sua timidez, esqueci que estava num encontro.

Eu fui somente eu e você como um dos meus melhores amigos. Mas você ainda me despertava um certo interesse que eu precisava realizar. Eu não iria me contentar com um encontro casual.

Mas eu estava gostando de te ver, mudar o seu sábado, de te fazer sorrir, gargalhar contigo e  me sentir importante. Eu queria entrar na sua vida, entender o que passa na cabeça dos que preferem ficar em casa jogando no pc ao invés de ir num parque ver as flores.

Estava tão bom que o beijo veio sem medo, sem culpa, sem porquê, quando me vi estava ali tentando te desvendar e catar um pouco de você pra mim. E na hora que você colocou a mão na minha cintura e correspondeu eu entendi o motivo dos “caras estranhos da turma” me fascinarem tanto.