Ode-ei-me

Ode-ei-me

odeio dias nublados
odeio chuva quando nao tenho sombrinha
odeio carro que passa em cima de poça
odeio pula-lás

odeio ver amigo chorar
odeio chorar de dor
odeio meu rosto marcado de lagrima
odeio até chorar

mas eu tambem sei amar

amo dias frescos de primavera
amo quando chove e já estou em casa
amo quando tenho dor na barriga de tanto rir

amo gargalhadas no escuro
amo filme de comédia
amo quando um filme de terror vira de humor
quando assisto em grupo

mas eu tambem sei querer

quero dias com ceu azul
quero lembrar de levar sombrinha pra rua
quero mais primavera
quero feriados com filmes engraçados

mas eu tambem sei cantar, ouvir, gostar, aguentar, ser forte, tentar, começar, tentar de novo, recomeçar e ainda chegar ao final de cada dia e entender que sou parte desse meu quase tudo
ou quase nada.

O estouro das pipocas – Rubens Alves

O estouro das pipocas – Rubens Alves

“A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens para que eles venham a ser quem devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele dever ser aquilo que acontece depois do estouro.
O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer. Pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa. Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente.

As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e de uma dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUM! – e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado.

Bom mas ainda temos o piruá que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito de elas serem. A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura.
O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém.
Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo…”

Texto retirado do livro “O Amor que Acende a Lua”

Bagunça

Bagunça

Café requentado,
pão dormido
e iogurte estragado.

Roupa amassada,
Calça rasgada
e meias velhas.

Prato quebrado,
Copo vazio
e pia suja.

Cama desarrumada,
cortina fechada,
e estante empoeirada.

Dias nublados,
livros não lidos
sonhos esquecidos

E insistem em dizer que estou melhor sem você.

Aqueles conselhos de sempre

Aqueles conselhos de sempre

Respire fundo
não confie em tudo que dizem
Deixe sempre um pé no chão
Não pule de cabeça.

Não se magoe
lembre-se da última briga
não deixe ser enganada
Mantenha seu orgulho.

Não leve tão a sério
não se iluda
Não acredite em declarações.

Não ligue no dia seguinte
não se preocupe com o mal-entendido
Deixe o outro te procurar.

Não se envolva,
Não diga o que sente
Não crie expectativa

Não queira, não sinta, não sonhe…

… não ame!